
O encontro de cúpula convocado apressadamente em 18 de agosto de 2025 foi um momento crucial, não apenas para a guerra na Ucrânia, mas para a estrutura fundamental da segurança europeia e da aliança transatlântica. A reunião na Casa Branca, que reuniu o Presidente dos EUA, Donald Trump, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e uma delegação sem precedentes de líderes europeus e da OTAN, expôs uma tensão central entre a abordagem transacional de “fechar acordos” do Presidente Trump e a posição da coligação europeu-ucraniana sobre o direito internacional e a segurança a longo prazo.
A agenda diplomática foi dominada por três pilares de negociação interligados e altamente controversos: a proposta de concessões territoriais por parte da Ucrânia, o conceito inovador de garantias de segurança “semelhantes às da OTAN” e o debate estratégico sobre a precedência de um cessar-fogo em relação a um acordo de paz abrangente. Os resultados do encontro foram marcadamente ambíguos. Por um lado, abriram um caminho viável para futuras conversações trilaterais envolvendo os Estados Unidos, a Ucrânia e a Rússia, um avanço diplomático significativo. Por outro lado, revelaram profundas fissuras dentro da aliança ocidental sobre a estratégia e os princípios para alcançar a paz. Em última análise, o encontro de cúpula de Washington pode ser visto como um passo significativo, embora repleto de dificuldades, em direção a uma maior responsabilidade estratégica europeia, acelerando uma transição na qual o continente é compelido a assumir um papel mais proeminente na garantia da sua própria segurança.
A reunião de alto nível na Casa Branca em 18 de agosto de 2025 não foi o produto de um planeamento diplomático deliberado, mas sim uma consequência direta e urgente de eventos que se desenrolaram apenas três dias antes, a milhares de quilômetros de distância. Foi uma cimeira nascida da necessidade, impulsionada por preocupações profundas em Kiev e nas capitais europeias de que a trajetória da guerra e o futuro da segurança do continente estavam a ser decididos sem a sua participação direta.
O ímpeto direto para o encontro em Washington foi a cimeira de 15 de agosto de 2025 em Anchorage, Alasca, entre o Presidente dos EUA, Donald Trump, e o Presidente russo, Vladimir Putin. Esta reunião, a primeira do seu género desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, terminou sem um acordo concreto, nomeadamente sobre um cessar-fogo. No entanto, os seus resultados políticos foram sísmicos. Putin conseguiu uma vitória estratégica significativa ao quebrar o seu isolamento diplomático e ser recebido calorosamente em solo americano. Mais alarmante para os aliados da Ucrânia, o Presidente Trump emergiu da reunião ecoando publicamente posições favorecidas pela Rússia. Ele começou a minimizar a necessidade de um cessar-fogo prévio, defendendo, em vez disso, um acordo de paz final e abrangente — uma mudança que se alinhava perfeitamente com a preferência de Moscovo por negociar enquanto mantinha a pressão militar. Além disso, Trump começou a sugerir abertamente que a Ucrânia teria de fazer concessões territoriais para alcançar a paz.
A exclusão dos líderes ucranianos e europeus das conversações no Alasca gerou alarme imediato em Kiev e em toda a Europa. A principal preocupação era a de serem “pressionados para um acordo de paz” que favorecesse a Rússia e minasse os interesses de segurança europeus. Em resposta, desenrolou-se uma rápida e intensa atividade diplomática durante o fim de semana. Os líderes europeus organizaram uma videoconferência de uma “coligação de voluntários” no domingo, 17 de agosto, para coordenar uma estratégia unificada com o Presidente Zelensky antes da sua viagem a Washington. Esta mobilização não foi apenas sobre expressar solidariedade; foi um esforço preventivo para garantir que as suas vozes coletivas fossem ouvidas e que os seus interesses vitais fossem representados.
A motivação explícita para a presença de uma delegação europeia de tão alto nível — incluindo os chefes da Comissão Europeia e da OTAN, bem como os líderes do Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Finlândia — era dupla. O primeiro objetivo era fornecer apoio diplomático, ou “guarda-costas”, ao Presidente Zelensky. A memória do desastroso e conflituoso encontro no Salão Oval em fevereiro de 2025, no qual Zelensky foi publicamente repreendido por Trump por suposta ingratidão, estava bem presente. Os líderes europeus estavam determinados a evitar a repetição de tal evento, usando a sua presença coletiva para garantir um ambiente de negociação mais respeitoso e equilibrado. O segundo, e igualmente crucial, objetivo era afirmar os interesses de segurança vitais da própria Europa. Eles entendiam que qualquer acordo forçado à Ucrânia que recompensasse a agressão russa criaria um precedente perigoso e ameaçaria diretamente a estabilidade de todo o continente. O encontro de Washington foi, portanto, tanto sobre a defesa da soberania da Ucrânia como sobre a salvaguarda da futura arquitetura de segurança da Europa.
O encontro de cúpula de Washington reuniu um grupo diversificado de líderes, cada um com um conjunto distinto de prioridades, linhas vermelhas e objetivos estratégicos. Embora unidos pelo objetivo declarado de acabar coguerra, as suas agendas subjacentes eram complexas e, por vezes, conflituosas, refletindo as diferentes pressões políticas, geográficas e históricas que cada um enfrentava.
Para a administração Trump, o objetivo principal era alcançar uma vitória diplomática rápida e visível. A retórica do presidente, centrada em slogans como “Eu resolvo” (“I’ll get it done”), sublinhava uma agenda que privilegiava a velocidade e a transação em detrimento das complexidades do direito internacional. O objetivo era um “acordo de paz” que pudesse ser apresentado como um sucesso pessoal e um testemunho da sua capacidade de negociação. Esta abordagem levou a uma pressão intensa e pública sobre a Ucrânia para que fizesse concessões significativas, nomeadamente a renúncia às suas reivindicações sobre a Crimeia e a região do Donbass, bem como o abandono formal das suas aspirações de adesão à OTAN, em troca de uma resolução do conflito.
Ucrânia (Presidente Zelensky)
A agenda do Presidente Zelensky era de natureza existencial. O seu objetivo principal era garantir uma “paz justa e duradoura” que preservasse a soberania e a integridade territorial da Ucrânia dentro das suas fronteiras internacionalmente reconhecidas. As principais exigências de Kiev incluíam a implementação de garantias de segurança robustas e práticas, a rejeição de qualquer cedência inconstitucional de território e a insistência de que a Ucrânia deveria estar envolvida em todas as decisões relativas ao seu futuro. A mudança deliberada de Zelensky do seu uniforme militar para um fato formal foi um sinal diplomático calculado. Respondendo diretamente às críticas anteriores de Trump, esta mudança de vestuário significou uma transição de um líder de guerra para um estadista pronto a negociar em pé de igualdade, uma manobra subtil mas poderosa para redefinir a dinâmica da sua relação com o presidente dos EUA.
A Coligação Europeia (UE, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Finlândia)
Agindo como um bloco notavelmente coeso, a delegação europeia prosseguiu uma agenda multifacetada. O seu princípio fundamental era a defesa da norma pós-Segunda Guerra Mundial de que as fronteiras internacionais não podem ser alteradas pela força. Eles procuraram garantir que qualquer acordo de paz fosse sustentável e não recompensasse a agressão russa, que viam como uma ameaça direta e iminente à segurança europeia em geral. Além disso, um objetivo crucial era obter um compromisso firme dos EUA para a futura arquitetura de segurança da Europa, especialmente através do envolvimento americano nas garantias de segurança propostas para a Ucrânia. Este encontro foi, portanto, um teste de fogo para a capacidade da Europa de agir como um ator geopolítico coeso. Ao organizarem-se coletivamente e viajarem para Washington em uníssono, os líderes europeus demonstraram uma capacidade emergente de defender os seus interesses de forma independente e, se necessário, em oposição à direção percebida da política dos EUA. Não se tratava apenas da Ucrânia; tratava-se de definir o papel da Europa numa nova e mais transacional relação transatlântica.
OTAN (Secretário-Geral Mark Rutte)
A presença do Secretário-Geral da OTAN, Mark Rutte, significou o interesse vital da Aliança no resultado das negociações. Embora a adesão formal da Ucrânia à OTAN estivesse explicitamente “fora da mesa” como uma concessão fundamental nas discussões , o papel da OTAN era crucial. A Aliança procurou endossar e ajudar a moldar as propostas de garantias de segurança “semelhantes às da OTAN”, garantindo que fossem credíveis e não comprometessem a integridade e a santidade do Artigo 5 para os membros de pleno direito. O historial de Rutte em lisonjear estrategicamente o Presidente Trump foi uma ferramenta diplomática importante neste contexto, visando manter os EUA ancorados no quadro de segurança europeu.
O forte contraste entre o encontro desastroso de fevereiro e a reunião cordial de agosto revela até que ponto as negociações foram influenciadas por dinâmicas e perceções pessoais. A mudança de vestuário de Zelensky, as suas expressões de gratidão e a lisonja calculada dos líderes europeus não foram pormenores triviais. Foram manobras diplomáticas deliberadas, concebidas para gerir a personalidade do Presidente Trump e criar um ambiente de negociação mais favorável. Isto sugere que, nesta era diplomática, a relação pessoal é tão crítica como a substância política, e a capacidade de navegar em interações pessoais pode determinar o sucesso ou o fracasso de negociações de alto risco.
Tabela 1: Posições de Negociação das Principais Partes Interessadas
Questão Central | Estados Unidos (Administração Trump) | Ucrânia (Administração Zelensky) | Coligação Europeia (UE/Nações Chave) | Rússia (Posição Implícita da Cimeira do Alasca) |
Concessões Territoriais | Aberto a troca de território por paz; pressionou ativamente a Ucrânia a ceder o Donbass/Crimeia. | Constitucionalmente proibido ; integridade territorial é uma “linha vermelha” ; aberto a conversações com base na linha da frente atual. | Rejeitou explicitamente a alteração de fronteiras pela força ; apoiou a soberania da Ucrânia. | Exigiu o controlo total do Donbass e o reconhecimento formal da anexação da Crimeia. |
Garantias de Segurança | Aberto a garantias “semelhantes às da OTAN” com envolvimento dos EUA, mas insistiu que a Europa deve liderar e pagar. | Pré-condição essencial para qualquer acordo; devem ser robustas, práticas e semelhantes ao Artigo 5. | Acolheu o envolvimento dos EUA; pronta a contribuir como uma “coligação de voluntários”. | Alegadamente concordou com o conceito como uma alternativa viável à adesão formal da Ucrânia à OTAN. |
Cessar-fogo vs. Acordo de Paz | Mudou de posição após o Alasca para favorecer um acordo de paz final sem um cessar-fogo prévio, alinhando-se com Putin. | Um cessar-fogo é um primeiro passo necessário para permitir negociações de boa-fé. | Acreditava que um cessar-fogo “não estava fora de questão” ; o Chanceler alemão Merz pediu explicitamente um. | Preferia fortemente negociar um acordo final enquanto mantinha a pressão militar no campo de batalha. |
Adesão da Ucrânia à OTAN | Explicitamente “fora da mesa”; uma concessão central exigida à Ucrânia. | Um objetivo estratégico a longo prazo, mas pragmaticamente focado em garantias alternativas e imediatas. | Apoiou oficialmente o caminho de adesão da Ucrânia, mas priorizou as garantias de segurança imediatas. | Uma “linha vermelha” primária; oposição inalterável como causa central do conflito. |
IV. Desconstruindo a Agenda Diplomática: Pilares Centrais da Negociação
As discussões em Washington giraram em torno de três pilares centrais e interligados, cada um representando um campo de batalha diplomático com implicações profundas para o resultado da guerra e o futuro da segurança europeia.
A Questão Territorial: Donbass, Crimeia e o Princípio da Soberania
No cerne das negociações estava a questão do território. A posição russa, transmitida por Trump após a sua reunião no Alasca, era maximalista: exigia o controlo total da região do Donbass (as províncias de Donetsk e Luhansk) e o reconhecimento formal da anexação da Crimeia em 2014. Para Kiev, ceder o restante território de Donetsk sob o seu controlo era uma impossibilidade estratégica. Tal movimento implicaria a perda da sua “cintura de fortalezas” fortemente fortificada, incluindo cidades cruciais como Kramatorsk e Sloviansk, que serviram como um baluarte defensivo contra o avanço russo durante anos. A perda desta linha defensiva deixaria o coração industrial da Ucrânia estrategicamente vulnerável a futuras ofensivas.
Além da importância militar, existia uma barreira legal e política intransponível. A Constituição ucraniana proíbe a cedência de território soberano, tornando as exigências de Trump um desafio direto à ordem jurídica e à vontade política da Ucrânia. Esta posição foi firmemente apoiada pela coligação europeia, que se manteve unida na sua posição de que as fronteiras internacionais não devem ser alteradas pela força. Para a Europa, esta não era apenas uma questão de apoio à Ucrânia; era uma defesa de um princípio fundamental que sustentou a segurança e a estabilidade do continente desde o final da Segunda Guerra Mundial.
O Enigma da Garantia de Segurança: A Promessa e o Perigo da Proteção “Semelhante ao Artigo 5”
Uma das evoluções mais significativas e discutidas que surgiram no período que antecedeu a cimeira foi o conceito de garantias de segurança “semelhantes ao Artigo 5”. Apresentado pelo enviado dos EUA, Steve Witkoff, como uma concessão “revolucionária” obtida de Putin no Alasca, este conceito propunha oferecer à Ucrânia a essência da proteção da OTAN — uma promessa de defesa coletiva — sem a adesão formal que a Rússia se opunha veementemente.
No entanto, esta proposta estava envolta em ambiguidade. As questões cruciais permaneciam sem resposta: O que significava “semelhante à OTAN” na prática? Implicaria uma presença de tropas dos EUA em solo ucraniano, uma possibilidade que o Presidente Trump se recusou a descartar? Qual seria o mecanismo de ativação exato e quem seriam os garantes? Líderes europeus, como o Presidente francês Emmanuel Macron, enfatizaram que a “substância” e a credibilidade de tais garantias eram muito mais importantes do que o “rótulo” que lhes era atribuído. A posição dos EUA, articulada por Trump, era de que os EUA estariam “envolvidos” e “ajudariam”, mas que a Europa, como “primeira linha de defesa”, teria de assumir a liderança e a principal responsabilidade financeira. Em resposta, a “coligação de voluntários” europeia declarou-se pronta a “fazer a sua parte”, chegando a apresentar propostas para o destacamento de uma força aliada na Ucrânia, longe das linhas da frente, para reforçar a confiança e dissuadir futuras agressões.
Processo e Pré-condições: A Lógica Estratégica do Debate sobre o Cessar-fogo
A discussão sobre se um cessar-fogo deveria preceder ou seguir um acordo de paz abrangente não era uma mera questão processual; era um debate estratégico fundamental sobre alavancagem negocial. Antes da cimeira do Alasca, Trump tinha defendido um cessar-fogo como um primeiro passo. No entanto, após a sua reunião com Putin, ele inverteu a sua posição, alinhando-se com a preferência russa de negociar um acordo final enquanto os combates continuavam. A justificação pública de Trump era que os cessar-fogos “muitas vezes não se mantêm” e poderiam criar uma desvantagem estratégica.
A lógica subjacente a estas posições opostas estava enraizada nas realidades do campo de batalha. A Rússia, que detinha a iniciativa militar, beneficiava de negociações contínuas sob fogo, pois podia continuar a ganhar terreno e a aumentar a pressão sobre Kiev para que fizesse concessões. Para a Ucrânia e os seus aliados europeus, que estavam na defensiva, um cessar-fogo era uma pré-condição essencial. Eles argumentavam que era “impossível fazer isto sob a pressão das armas” e que um cessar-fogo era necessário para estabilizar as linhas da frente e permitir negociações de boa-fé, livres de coação militar. A inversão de Trump foi uma grande concessão a Moscovo, alterando fundamentalmente a paisagem negocial a favor da Rússia. A batalha sobre o
processo era, na realidade, uma batalha pelo poder, e a mudança de Trump efetivamente entregou uma alavancagem significativa a Putin antes mesmo de as conversações em Washington terem começado.
V. Principais Resultados e Pronunciamentos Oficiais
Apesar das profundas divergências sobre questões fundamentais, o encontro de cúpula de Washington produziu vários resultados tangíveis e estabeleceu um novo, embora frágil, quadro para o futuro envolvimento diplomático.
Uma Mudança de Tom
O resultado mais imediato e visível foi a mudança dramática no tom em comparação com o encontro de fevereiro de 2025. A reunião de 18 de agosto foi marcadamente mais cordial e construtiva. O Presidente Trump elogiou publicamente o Presidente Zelensky e prometeu “muita ajuda”, especialmente em matéria de segurança. Esta mudança, impulsionada em parte pela presença unificada dos líderes europeus e pelas manobras diplomáticas de Zelensky, criou uma base de trabalho funcional que permitiu que as discussões prosseguissem, mesmo no meio de desacordos políticos significativos.
Acordo sobre um Caminho a Seguir
O resultado mais concreto foi o acordo unânime para explorar a possibilidade de conversações trilaterais envolvendo os Estados Unidos, a Ucrânia e a Rússia. O Presidente Trump declarou que planeava telefonar ao Presidente Putin após a reunião e que uma “trilateral” poderia ocorrer “em breve” se “tudo corresse bem”. Esta convergência representou um avanço significativo, estabelecendo um formato de negociação direto que incluía todas as partes principais, algo que a Ucrânia há muito defendia.
Compromisso dos EUA com as Garantias de Segurança
O Presidente Trump afirmou publicamente o envolvimento dos EUA na provisão de garantias de segurança “semelhantes às da OTAN” para a Ucrânia. Embora os detalhes permanecessem indefinidos, esta declaração pública constituiu um compromisso político significativo por parte dos Estados Unidos, reconhecendo um papel americano na segurança futura da Ucrânia, mesmo fora do quadro formal da OTAN.
Nenhuma Resolução sobre Questões Centrais
Como esperado, não foi alcançado um acordo final sobre as questões mais controversas. A questão do território e o debate sobre o cessar-fogo permaneceram por resolver. O Presidente Zelensky reiterou que quaisquer concessões territoriais teriam de ser discutidas diretamente num encontro presencial com Putin, enquanto os líderes europeus, nomeadamente o Chanceler alemão Friedrich Merz, continuaram a pressionar por um cessar-fogo como o próximo passo lógico.
Ações de Acompanhamento
Demonstrando a sua intenção de manter uma abordagem unificada e coordenada, o Presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, anunciou que os 27 líderes da UE realizariam uma videoconferência de acompanhamento na terça-feira, 19 de agosto. O objetivo era fazer um balanço das discussões em Washington e coordenar os seus próximos passos, sinalizando um esforço diplomático europeu sustentado e coeso.
VI. Repercussões Internacionais: Reações de Moscovo e Pequim
As negociações em Washington não ocorreram num vácuo geopolítico. As reações, ou a falta delas, de outras grandes potências, nomeadamente a Rússia e a China, forneceram um contexto crucial e revelaram um campo de batalha diplomático mais amplo e multipolar.
O Silêncio Estratégico e a Diplomacia Paralela da Rússia
O Kremlin absteve-se de qualquer reação oficial direta ao encontro de Washington. No entanto, as suas ações foram eloquentes. Durante a realização da cimeira, as forças russas lançaram uma nova onda de ataques com mísseis e drones contra cidades ucranianas, resultando em vítimas civis. Este ato foi um sinal inequívoco da intenção da Rússia de negociar a partir de uma posição de força militar e de desprezo pelas formalidades diplomáticas. Simultaneamente, o Presidente Putin envolveu-se numa diplomacia paralela. Numa jogada notável, telefonou ao Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, para o informar sobre as conversações no Alasca e para cortejar o “Grupo de Amigos da Paz”, uma iniciativa que o Brasil partilha com a China. Esta ação foi uma tentativa clara de construir vias diplomáticas alternativas, minar a narrativa ocidental e angariar apoio no Sul Global.
O Endosso Cauteloso da China
A reação oficial da China foi cuidadosamente calibrada. Um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros apelou a “todas as partes” para que chegassem a um “acordo de paz justo, duradouro, vinculativo e aceitável para todas as partes o mais rapidamente possível”. Pequim expressou o seu apoio ao diálogo entre os EUA e a Rússia, enquadrando-o como um passo positivo em direção a uma solução política, mas absteve-se de tomar partido ou de se comprometer com qualquer resultado específico.
Estas reações revelam que o conflito está a ser travado num palco diplomático global. A iniciativa da Rússia junto do Brasil e a declaração cuidadosamente redigida da China demonstram os seus esforços para moldar a narrativa internacional e posicionarem-se como intervenientes-chave em qualquer acordo final. Isto transforma o conflito de uma questão bilateral Rússia-Ucrânia ou de um confronto Leste-Oeste numa complexa partida de xadrez diplomático multipolar. A formação de blocos e a competição por influência estão a ocorrer à escala global, com a aproximação da Rússia ao Sul Global a ser uma tentativa direta de diluir a pressão unificada exercida pelo encontro de Washington.
VII. Implicações Estratégicas e Perspetivas Futuras
O encontro de cúpula de Washington, embora inconclusivo em muitos aspetos, desencadeou uma série de implicações estratégicas que provavelmente moldarão a segurança europeia e as relações transatlânticas nos próximos anos.
Para a Soberania Ucraniana
Para a Ucrânia, o encontro de cúpula apresentou uma espada de dois gumes. Por um lado, a discussão pública sobre concessões territoriais e a remoção explícita da adesão à OTAN da agenda de curto prazo representaram uma potencial erosão das escolhas soberanas a longo prazo da Ucrânia. Colocou Kiev numa posição defensiva, tendo de justificar a sua recusa em ceder território sob intensa pressão internacional. Por outro lado, a perspetiva de garantias de segurança robustas e apoiadas pelos EUA, caso se concretizassem, poderia oferecer uma forma de proteção mais tangível e imediata do que a promessa distante de adesão à OTAN. Tal acordo, embora imperfeito, poderia fortalecer a segurança da Ucrânia a médio prazo, proporcionando um dissuasor credível contra futuras agressões russas.
Para a Aliança Transatlântica
O encontro foi um momento decisivo para a aliança transatlântica. Expôs a vulnerabilidade da aliança a uma presidência dos EUA transacional e imprevisível, que estava disposta a contornar os aliados tradicionais em busca de um acordo pessoal. No entanto, esta mesma vulnerabilidade catalisou uma demonstração sem precedentes de unidade e agência diplomática europeia. A imagem dos líderes das principais nações europeias a voarem para Washington para formarem uma frente unida foi um poderoso símbolo de uma nova determinação. A implicação a longo prazo é uma aceleração do impulso para a autonomia estratégica europeia. A crise forçou a Europa a confrontar um futuro em que deve assumir uma maior responsabilidade pela sua própria segurança, uma mudança que todas as partes parecem agora abraçar, ainda que por razões diferentes.
Para a Arquitetura de Segurança Europeia
O conceito de garantias “semelhantes ao Artigo 5” para um Estado não-membro, se implementado, criaria um nível novo e personalizado na segurança europeia. Isto poderia remodelar fundamentalmente a paisagem de segurança do continente, estabelecendo potencialmente um modelo para outros parceiros estrategicamente importantes que não são membros da OTAN. No entanto, esta inovação acarreta riscos significativos. Poderia diluir a santidade única do Artigo 5, criando ambiguidade sobre os compromissos de defesa coletiva que poderia ser explorada por adversários no futuro. O encontro de cúpula forçou um debate fundamental sobre o futuro da segurança coletiva na Europa, empurrando os decisores políticos para além dos limites das estruturas de tratados existentes e para um território novo e incerto.
VIII. Conclusão
O Encontro de Cúpula de Washington de 18 de agosto de 2025 não foi um momento de resolução, mas sim de profunda transição. Não conseguiu produzir um plano de paz concreto, mas conseguiu estabelecer um novo, embora frágil, quadro para a negociação, centrado na perspetiva de conversações trilaterais e na exploração de garantias de segurança personalizadas. O encontro ilustrou de forma contundente as prioridades estratégicas divergentes dentro da aliança ocidental, com o foco do Presidente Trump num acordo rápido a colidir com a ênfase europeu-ucraniana numa paz justa e duradoura, baseada no direito internacional.
A consequência mais significativa a longo prazo pode não ser o resultado específico para a Ucrânia, mas sim o poderoso ímpeto que a crise deu à evolução da autonomia estratégica europeia. Ao serem confrontados com a possibilidade de um acordo EUA-Rússia que contornasse os seus interesses, os líderes europeus responderam com uma demonstração de unidade e propósito que marcou um ponto de viragem. O encontro de cúpula forçou o continente a confrontar um futuro em que deve ser o principal garante da sua própria segurança. O caminho a seguir permanece repleto de perigos e incertezas, mas os canais diplomáticos, e as questões fundamentais sobre o futuro da Europa, estão agora irrevogavelmente abertos.